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viva luta por liberdade!

Homens e Mulheres são equivalentes.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Considerações sobre o anarcofeminismo

Por Vanessa Luana e Mabel Dias


Anarcofeminismo, também chamado de feminismo libertário, é o movimento de luta pela libertação da mulher com um viés anarquista. Para as anarcofeministas, a emancipação feminina só se dará com a destruição do Estado e do sistema de classes, responsáveis pela opressão do gênero feminino. O anarcofeminismo é, então, a busca pela transformação da sociedade sob a perspectiva dos conflitos de gênero; é a tentativa de superação do patriarcado sem pretender estabelecer outras formas de domínio em seu lugar. Trata-se de um caminho para se vivenciar a anarquia para chegar à sociedade libertária.



Não existe uma data precisa para o surgimento do anarcofeminismo. Pode-se dizer que a partir do momento que as mulheres anarquistas começaram a participar ativamente do movimento anarquista, o anarcofeminismo começou a tomar forma. As libertárias passaram a atuar ao lado dos companheiros ácratas e a discutir, propondo meios de combate à opressão que a mulher sofria na sociedade da época.



Maria Lacerda de Moura, Sônia Oiticica, Luce Fabri, Matilde Magrassi, Emma Goldman, Paula Soares, Áurea Quadrado, são apenas algumas das mulheres anarquistas que atuavam no movimento, seja de maneira individual ou em coletivos. Boa parte de suas produções foram perdidas ou destruídas pelos partidos comunistas e pelos governos totalitários, como os de Getúlio Vargas, que prendeu e perseguiu muitos grupos libertários.



Atualmente, existem poucos grupos e mulheres anarcofeministas pelo Brasil e no mundo. Mesmo assim, a vivência daquelas mulheres ainda reflete fortemente em diversos países, como Brasil, México, Bolívia, Espanha, Itália, EUA, entre outros.



O anarcofeminismo compreende que a opressão da mulher é resultado de uma sociedade capitalista e patriarcal, e não do gênero masculino. Por isto, propõe uma sociedade anarquista, em que mulheres e homens sejam vistos como seres humanos completos. O homem é também explorado pelo capitalismo e tem sua masculinidade a todo tempo colocada à prova, porém a sua opressão se dá de maneira diferenciada da da mulher. Enquanto as mulheres são oprimidas, discriminadas, violentadas pelo seu sexo.



Embora o anarcofeminismo beba diretamente da fonte da política anarquista, ele contesta a atuação dos homens libertários e do próprio movimento anarquista, que não dá a devida visibilidade às questões relacionadas à mulher e muitas vezes vê como redundante o termo anarcofeminismo. Por causa disto, foram formados grupos só com mulheres que trouxeram para dentro do movimento estas questões de gênero e da mulher de maneira decisiva. Aqui no Brasil havia o Coletivo AnarcoFeminista (CAF) – surgido nos anos 90 na capital paulista, e atualmente o Grito de Revolta das Mulheres Libertárias (GRML), também em São Paulo. Devido a isto, o anarcofeminismo tomou mais força. São as mulheres libertárias falando com voz própria. Não há lideranças entre as anarcofeministas, sendo sua organização autônoma e horizontal, não havendo hierarquias nem práticas autoritárias nem de valores burgueses. As anarcofeministas não buscam mudanças através de instituições estatais, aprovação de leis, pelo voto ou com a entrada de uma mulher no poder. Estas práticas podem fazer alguma diferença, mas são mínimas porque o problema maior, a raiz de todo o patriarcado perpassa as questões de gênero. O importante é que todas as mulheres tenham poder próprio, pois as mudanças de sexo nos cargos de chefia não alteram a situação das coisas. Que elas possam se expressar sem terem de ser tuteladas por organizações não governamentais ou pelo próprio governo. Maria Lacerda de Moura já dizia: “Não será com algumas mulheres no poder que resolveremos o problema das que estão no tanque, nas ruas, na cozinha!”



As anarcofeministas acreditam na prática da ação direta. É claro a importância que as anarcofeministas têm na transformação do discurso e da prática anarquista. No entanto, esta disposição não pode se restringir a apenas um grupo especifico, tornando assim suas bandeiras sem o longo alcance que merece ter.



A lógica do anarcofeminismo é carregada de potencialidades que possibilitam uma boa articulação entre a revolução individual e a necessidade de uma revolução social que garanta a perpetuação destas novas relações.

Em 2007, foi publicado em parceria com a jornalista e anarcofeminista Mabel Dias e a Imprensa Marginal de São Paulo um livreto contando a história destas mulheres anarquistas. O trabalho é uma reedição de fanzines que foram editados nos anos de 2002 e 2003 e que agora recebem um novo formato. Um segundo livreto será publicado em breve, desta vez, com as histórias das libertárias contemporâneas.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sinais dos tempos: a luta de classes se acirra

Escrito por Waldemar Rossi



Muito se tem escrito sobre os conflitos entre o capital e o trabalho. Em quase sua totalidade, a abordagem mostra os avanços do capitalismo, as freqüentes derrotas dos trabalhadores e os recuos e fraquezas do movimento sindical e social em nível mundial.



Isso ocorre na grande e tradicional Europa ocidental, onde o capital chantageia com a "ameaça" de transladar suas fábricas para a Europa do leste, porque lá os salários são bem menores e os incentivos fiscais muito mais vantajosos. Acontece na América do Norte, onde o NAFTA (tratado de livre comércio daquela região) favorece a instalação de fábricas moderníssimas em regiões de mão-de-obra muito barata, principalmente no México, gerando a concorrência entre os trabalhadores dos seus três países (EUA, Canadá e México). Enquanto que as mesmas empresas estadunidenses mantêm os trabalhos produtivos que exigem maior capacitação técnica – e que oferece melhores salários – para seus cidadãos brancos, fazendo aumentar a já tão criminosa disparidade social e econômica por questões racistas.



Na Ásia dos chamados "tigres", empresas multinacionais que se desenvolveram muito rapidamente vêm sofrendo os efeitos da superprodução e destruindo direitos que os trabalhadores vinham progressivamente conquistando.



Na América Latina... Bem, aqui já se falou tanto disso que o assunto se torna repetitivo. Porém, não há como escapar da "armadilha" que a política nos arma a todo instante.



Vendido o peixe do "milagre brasileiro" dos anos 70, em que a classe média se vendeu ao capital multinacional, a entrada dos anos 80 começou a mostrar que a época desenvolvimentista estava se acabando e levando consigo os sonhos de um Brasil para todos. Restava um Brasil para nem todos, que, aos poucos, foi virando "o Brasil para as transnacionais e para o capital financeiro", deixando como rastro o cheiro da podridão e milhões de desempregados e subempregados, da rotatividade estonteante de mão-de-obra formal e crescente redução salarial. Não tem sido diferente no conjunto da América Latina, com a diferença que o mais importante "milagre econômico" se deu no Brasil.



Como houve, à época, a retomada consciente das lutas operárias e camponesas, com o conseqüente avanço nas conquistas econômicas e sociais, o capital retomou seu plano de super-exploração, sendo necessário, para isto, subjugar o movimento reivindicatório das classes trabalhadoras.



Era o início dos esforços para dividir e enfraquecer o movimento popular, criando entidades fantoches tipo CGT e Força Sindical, cooptar direções como as da UNE, CUT e de partidos de esquerda, tipo PCB (sua antiga direção), PSDB, PT e PC do B.



Acenando para a possibilidade de chegada ao poder político, a direita consegue seus objetivos, inicialmente com a era FHC, exigindo, como contrapartida, nada mais nada menos que a entrega de todo o patrimônio nacional e a destruição dos direitos trabalhistas.



Ludibriados pela oportunidade da classe trabalhadora alcançar o poder político nacional, via Lula, PT e seus aliados esquerdistas, o movimento social caiu no canto da sereia e entregou sua disposição para a luta nas mãos dos seus "representantes". Boicotada a mobilização popular via CUT, PT, UNE e PC do B, a classe trabalhadora se sentiu órfã e sem forças, caindo abatida durante vários anos.



Mas a História não acabou, como dizem os aliados da classe dominante. Por baixo das cinzas muita brasa continuou a arder, mantendo aquecido o sonho de conquista da justiça social. Como em toda a história dos povos, o vulcão de novos movimentos populares entra em erupção no Brasil também, como vem acontecendo em vários países no mundo. Estamos presenciando - ainda que a mídia insista em negar todas as informações ou a distorcê-las – a retomada das forças reivindicativas. Desde as ocupações do MST e Via Campesina, nas questões da terra, passando pelas greves dos professores de vários níveis, estudantes, carteiros, petroleiros, metalúrgicos, do funcionalismo municipal, polícias.



Assistimos ao crescimento de movimentos de resistências, como a denúncia da ação macarthista do Ministério Público do RS sobre o MST, assim como a ampla mobilização nacional em defesa do próprio MST e da Via Campesina, expressões legais e legítimas do Movimento dos Sem Terras; ao movimento contra a irracional transposição do rio São Francisco e de outros em defesa da ecologia; contra o desmatamento e a poluição dos aqüíferos pela mineração irresponsável e predadora; contra a entrega do patrimônio público às empresas privadas.



Vemos crescer movimentos populares pela mudança das leis visando punir todos os políticos envolvidos em crimes de todas as naturezas, pelo fim do trabalho escravo e punição daqueles que o praticam; pela redução da jornada de trabalho, sem redução salarial e sem "bancos de horas". No âmbito eclesial, percebemos a retomada das pastorais sociais, em particular as de juventude, da retomada das CEBs e seu compromisso com os excluídos.



Mas há também uma onda crescente de manifestação da insatisfação com as políticas do atual governo, para a qual contribuiu muitíssimo a renúncia da então ministra do Meio Ambiente, Marina da Silva e pelas denúncias de irregularidades e falcatruas que envolvem as três esferas dos Poderes da República. Muitos que até então defendiam o atual governo já não o fazem mais.



Algo que nos anima a manter vivos nossos sonhos de justiça é também o surgimento de novas forças trabalhistas, concentradas particularmente na CONLUTAS e na INTERSINDICAL, dois embrionários movimentos dos trabalhadores que, devido aos seus compromissos de classe vêm ganhando progressivamente a confiança de parcelas significativas da classe trabalhadora brasileira. Não têm, ainda, a força necessária para o grande enfrentamento com as mazelas do capital. Mas a alcançará com o aprendizado da própria luta de classes.



Olhando os "sinais dos tempos", podemos ter a certeza que um novo e amplo movimento social, forte e enraizado na vida sofrida do povo está sendo gestado.



Certamente nascerá. Não sem dores de parto e nem antes de seu tempo de maturação. Dependerá da contribuição de cada um e cada uma de nós. Mas chegará e com forças renovadas e transformadoras. Quem viver verá.



Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O outro sexo

Sexualidade passou a ser reconhecida nos meios profissionais da saúde como um aspecto de importância para a vida das pessoas. Desde a década de 1970[1], ainda timidamente, a Organização Mundial de Saúde fez algumas reunião com especialistas para definir o conceito de saúde sexual, e apenas em 2003 que surgiu um documento que respondia àquela primeira reunião, que sequer teve uma publicação à época[2]. Este movimento ocorreu em paralelo com a Associação Mundial de Sexologia (atual Associação Mundial para a Saúde Sexual) que promulgo a Declaração dos Direitos Sexuais em 1997, ratificada em 1999 no Congresso Mundial de Sexologia, em Hong Kong, que gerou uma importante reunião da Organização Pan-americana de Saúde na Guatemala, em 2000[3].

Porém, este reconhecimento todo ainda não chegou aos profissionais de saúde, e muito menos às pessoas que necessitam das atenções em sexualidade.

A Educação Sexual e a atenção à Saúde Sexual ainda precisam de muito para que se consiga iniciar o caminho promovido por aqueles organismos internacionais que desejam que as pessoas sejam sexualmente felizes.

Mas por qual razão é que uma pessoa deve ser sexualmente feliz?

A sexualidade que permite a sensação de felicidade exige alguns pressupostos: saúde física, saúde mental e saúde social.

Além disso, a Declaração Universal dos Direitos Sexuais[4] aponta alguns caminhos, e um deles é “O direito à informação baseada no conhecimento científico. A informação sexual deve ser gerada através de um processo científico e ético e disseminado em formas apropriadas e a todos os níveis sociais.”

E aqui chegamos a este livro.

São produções escritas uma maneira de conduzir às pessoas as informações que permitam o conhecimento das coisas do sexo estudadas e descobertas nas pesquisas científicas.

Em nosso imenso Brasil, com uma população de 180 milhões de pessoas, precisamos muitas publicações que permitam a todos esses milhões acessarem informações sobre sexualidade para que se auxiliem, num primeiro momento, nos caminhos para alcançar a saúde sexual.

Favorecer estas publicações, disseminá-las é nossa atuação profissional, é parte de nosso trabalho em prol da saúde sexual.

Por isso este trabalho coletado pelo Dr. Carlos Magno tem importância. Auxilia a disseminar as discussões do âmbito profissional dos estudos da sexualidade para os leitores se apropriarem das informações em prol da saúde sexual.

Nossos agradecimentos ao Dr. Carlos Magno, com um brinde aos leitores que iniciam esta caminhada útil para a felicidade sexual.

São Paulo, junho de 2008.

Psic. Oswaldo M. Rodrigues Jr.

Instituto Paulista de Sexualidade – Diretor e Psicoterapeuta Sexual

World Association for Sexual Health – membro do Conselho Consultivo (2001-2009)

[1] Education and treatment in human sexuality: the training of health professionals. Geneva, World Health Organization, 1975 (WHO Technical Report Series No. 572).

[1] Defining sexual health - http://www.who.int/reproductive-health/publications/sexualhealth/defining_sh.pdf

[1] Promoción de Salud Sexual: Recomendaciones para la acción - http://www.paho.org/Spanish/AD/FCH/AI/salud_sexual.pdf

[1] http://www.worldsexology.org/about_sexualrights_portuguese.asp



[1] Education and treatment in human sexuality: the training of health professionals. Geneva, World Health Organization, 1975 (WHO Technical Report Series No. 572).

[2] Defining sexual health - http://www.who.int/reproductive-health/publications/sexualhealth/defining_sh.pdf

[3] Promoción de Salud Sexual: Recomendaciones para la acción - http://www.paho.org/Spanish/AD/FCH/AI/salud_sexual.pdf

[4] http://www.worldsexology.org/about_sexualrights_portuguese.asp

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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PROFOSP CRESCE NO INTERIOR


PROFOSP CRESCE NO INTERIOR
(Extraído do "A PLEBE" nº 27 de Julho de 2.003)

O Movimento Pela Reconstrução da Confederação Operária Brasileira (COB/ACAT-AIT) dá um novo passo no estado de São Paulo com a abertura de um “Núcleo PROFOSP- Oeste”, na região da Presidente Prudente. Essa região concentra desde o presídio de segurança máxima, onde está Fernandinho Beira-Mar, até os conflitos agrários na região do Pontal do Paranapanema. O núcleo Oeste da PROFOSP vem tendo um processo de aproximação desde a Campanha Nacional Pelo Voto Nulo em 2.002, na época como “Amigos da PROFOSP/COB-AIT”. A partir dessa unidade
de ação desenvolvemos uma linha de discussão que culminou com a adesão formal as “Bases de Acordo do Núcleo PROFOSP” e a carta de princípios da AIT.


Hoje atuam em acordo com a Seção da AIT no Brasil, a FORGS/COB-ACAT/AIT, e com o Núcleo PRO-Federação Operária de São Paulo, mas já traziam consigo um histórico de atividade que resumimos abaixo:

“No ano de 2001 ativistas libertários de Presidente Prudente iniciaram sua organização. Nasceram os grupos “Os Ingovernáveis”, a “Liga Libertaria” e a “Resistência Prudentina (R.P.)”. Desenvolviam um trabalho pouco expressivo, devido a pouca estrutura. A “R. P.” editou um único número de jornal que caiu nas mãos dos dois grupos existentes. A “Resistência Prudentina” e “Os Ingovernáveis” realizaram um encontro em 2002 na possibilidade da união dos grupos e formação de um forte movimento. O que de fato não aconteceu: a R.P. se desarticulou.

“A partir de então cresce contato entre a “Liga Libertaria” e “Os Ingovernáveis” que decidiram unir a organização de atividades e eventos junto ao movimento alternativo da cidade. Daí surgiu uma aliança libertaria que tinha como grande luta sair do isolamento e se articular com outros coletivos anarquistas do pais, fortalecendo-se.

“Hoje estamos organizados em grupos de afinidades, por setor de Presidente Prudente. Na UNESP existem dois grupos de afinidade com simpatizantes, há outras pessoas atuando na luta pela moradia estudantil, ocupações estudantis e na comissão de moradia da FCT.

“Há outro grupo de afinidade que se constituiu como núcleo anarco-sindicalista , mantendo atualmente vínculos com a Seção da AIT no Brasil, organizando trabalhadores e fortalecendo a organização da pró- Federação Operária de São Paulo (PROFOSP/COB-AIT).

“Grupos também atuam em dois bairros da cidade, contando com o apoio contra-cultural da
banda “Pão,Circo,Violência”. Senda esta responsável pela organização de eventos para a arrecadação de fundos.

“Os grupos de afinidades constituem a “Liga Libertaria”, organização anarquista que desenvolve
varias campanhas regionais de boicote e solidariedade às lutas internacionalistas e de conscientização do proletariado, atos de solidariedade aos povos que sofrem com ações imperialistas, como no Oriente Médio, com passeatas e boicote a produtos e empresas que patrocinam as guerras. Recentemente estamos fortalecendo a lista do movimento pela reconstrução da COB, divulgamos o jornal “A Plebe” editado pela PROFOSP/COB-
AIT.”

(de Antonio Sevilha, pela PROFOSP-Oeste)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Entrevista com Ravachol, membro da Coordenação da FOSP

Estamos realizando entrevista com membro da FOSP. Logo teremos publicada.

Aguardem!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Jornada de Lutas das Mulheres Sem Terra 2008


Dia da Mulher: Qual o sentido dessa data?

A mulher Sem Terra é duplamente oprimida, pela exploração do capital e por ser mulher. Não enfrentam somente as privações sobre seu próprio corpo impostas pela sociedade capitalista machista, mas também a dura caminhada pela sobrevivência na luta pela terra que lhes pertence e pela terra que é hoje devastada pela ambição produtivista imposta pelo capitalismo.

É por sabermos dessa condição que temos o 8 de março como dia de luta contra a opressão da mulher e do sistema que agudiza tal opressão. É nessa data também que apresentamos, principalmente, a pauta nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no que diz respeito ao modelo agrícola. Isso porque são sobretudo as mulheres quem sofrem o impacto do atual modelo agroexportador baseado na pilhagem da natureza e no sufocamento da produção camponesa por conta das grandes transnacionais.

É nesse momento que mulheres Sem Terra de todo o país mobilizam-se para o enfrentamento com o agronegócio, buscando mostrar à sociedade a existência de um projeto alternativo de agricultura, baseado na produção camponesa em pequenas propriedades que respeitem a biodiversidade, além de um projeto alternativo de sociedade, livre de critérios produtivistas e da cega lógica capitalista que torna impossível condições igualitárias para homens e mulheres.

8 de março é dia de lutar!

Entre o fim de fevereiro e o começo de março as mulheres socialistas do início do século XX na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos celebravam seu dia de luta a partir de acontecimentos importantes: greves, manifestações, enfrentamentos.

Em plena Guerra Mundial, em 1917, na Rússia, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de fevereiro, pelo calendário russo. No calendário ocidental, a data correspondia ao dia 8 de março. Neste dia, em Petrogrado, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a posição do Partido, que achava que aquele não era o momento oportuno para qualquer greve, saíram às ruas em manifestação; foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro.

Ao longo dos anos, o 8 de março foi se tornando um dia de valorização do fútil, da beleza, do comércio, da confraternização, porém cultivamos o princípio de sua criação como um momento em que as mulheres vão às ruas para se manifestar, fazer suas reivindicações.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Destruindo o patriarcado na busca de uma sociedade anarquista

Desde a infância há imposição da sociedade, da família e da religião de como deve se comportar cada um dos gêneros. As cores que devem usar; do que devem gostar; como devem brincar. Para os meninos, o azul, o carro. Para as meninas, o rosa, o fogãozinho. Deste modo, se determina o espaço público para os homens e o espaço privado para as mulheres.
Esses papéis são puramente culturais, nada há de natural como demonstram pesquisas no ramo da psicologia e da antropologia. Essa cultura patriarcal oprime as mulheres e limita os homens.
Diversos fatores exteriorizam o patriarcado (dominação do gênero masculino sobre o feminino) como, por exemplo, o mito de Adão e Eva, que legitima a submissão feminina.
De acordo com José Carlos Leal, no mito do Gênesis, a mulher não estava nos planos de deus, foi criada apenas como decorrência das necessidades do homem. Diz o texto: “não é bom que o homem esteja só, façamo-lhes um adjuntório (ajuda) semelhante a ele”. Outra parte importante presente no Gênesis é quando a mulher comete o pecado original (quando Eva oferece do fruto da árvore proibida para Adão), sendo culpada por todos os males da humanidade, “assinando” assim sua sentença de submissão. Mas, e porque a serpente tenta Eva e não Adão? É interessante o argumento usado por Adão para se justificar com deus: “A mulher que me destes por companheira, deu-me do fruto da árvore e eu comi”. Eva desestabilizou a relação do homem com deus, portanto é um ser destrutivo e merece ser punida com a submissão ao homem. Será assim até o “fim dos tempos?”
Até hoje, século XXI, apesar das descobertas cientificas que derrubaram essa lenda ainda há nela uma forte crença, alimentada pela classe dominante, de modo utilitário para seus propósitos.
Com a passagem da sociedade nômade para a civil, o homem começou a limitar terrenos, cercando-os determinando assim o que era seu. Começa aí a se formar a propriedade privada. Nas sociedades nômades, as relações entre homens e mulheres eram poligâmicas. Com o advento da propriedade privada, esta relação passa a ser monogâmica para que o homem soubesse o que lhe “pertencia”, sendo assim, além das terras, casa e animais, as mulheres também passaram a ser propriedade.
Atualmente, com a burguesia e o modo da economia capitalista, a figura feminina continua a ser colocada em uma situação de passividade. As mulheres executam o mesmo trabalho que os homens e recebem menos e o trabalho das donas-de-casa não é valorizado. Aos homens também são reservados os melhores empregos, mesmo que estes tenham grau de escolaridade menor.
Isso não significa dizer que pretendemos concorrer com os homens por melhores empregos, salários nem cargos de poder, pois não acabariam com a situação de opressão, apenas se inverteriam os papéis, como sugerem algumas feministas.
Queremos demonstrar a desigualdade entre os sexos, causada pela sociedade burguesa capitalista. O patriarcado castra a liberdade sexual tanto dos homens quanto das mulheres; eles sofrem a pressão da poligamia mecânica enquanto elas, a repressão dos desejos. Homens e mulheres que se relacionam com pessoas do mesmo sexo ficam excluídas do mercado de trabalho e da sociedade como um todo, pois sua orientação sexual quebra o padrão estabelecido.
Outro modo de se utilizar os papéis de gênero pelo capitalismo é a exploração da imagem da mulher, sendo literalmente vendida como objeto sexual através da mídia. É cada vez maior o número de grupos de forró, “axé music” e funk que exploram a figura feminina de uma maneira aviltante. A mídia (TV, rádio, jornal, entre outras) contribui de maneira significativa com toda a difusão deste tipo de cultura de massa, fazendo com que se mantenha a discriminação em relação à mulher e, consequentemente a conservação do sistema de gênero.
Estamos em pleno século XXI, mas se formos fazer uma pesquisa constataremos que o número de mulheres que ainda apanham dos maridos/namorados/companheiros e se submetem as vontades deles é alarmante. Na Paraíba, por exemplo, soubemos de um caso de uma mulher que para “não ser mal vista” na cidade onde mora, pois já não era mais virgem, iria se submeter a uma cirurgia de reconstituição do hímen para que no dia que fosse ter relações com o marido, ele não notasse. Ainda se mata por ciúmes; a mulher é vista como propriedade dos maridos; em relação aos homens, a situação não é diferente: grande parte das mulheres que se encontram encarceradas, estão por terem matado os maridos depois de saberem que eles mantinham um outro relacionamento. Porém, este último caso é bem mais raro de acontecer.
Já no movimento anarcopunk, que completou recentemente 30 anos de existência, as discussões sobre gênero são bastante recentes e incipientes, como também no movimento anarquista. Com as anarcofeministas, antigas e atuais, é que este panorama começou a mudar, pois elas formaram grupos de discussão e atuação, passando assim a questionar a relação homem/mulher dentro do meio punk. Tal impulso se deu porque as mulheres anarcopunks e anarquistas perceberam que, dentro do próprio movimento, os papéis de gênero eram mantidos, tanto por mulheres quanto por homens. Mesmo @s punks quebrando todos os padrões, este ainda continuava a existir.
Anarquistas como Emma Goldam, Maria Lacerda de Moura, a libertária Flora Tristán, entre outras, começaram a colocar em discussão, seja de maneira individual ou coletiva, no movimento anarquista dos séculos XIX/XX, a opressão que as mulheres sofriam na recente sociedade industrial, brasileira e européia. Os homens libertários, como hoje, não davam tanta importância a exploração pela qual as mulheres passavam nas fábricas (para onde levavam suas/seus filh@s) nem em casa. E as próprias mulheres não tinham espaço para colocar o que sofriam. Só a partir da inserção das mulheres dentro do movimento anarquista e em outros espaços de discussão, é que este quadro começou a mudar.
Assim como a partir da criação de grupos anarcofeministas e da organização das mulheres no mesmo. Não é à toa que foram as mulheres que trouxeram à tona a discussão sobre o sistema de gênero; pois são elas que sentem as dificuldades quando saem às ruas; quando vão parir; quando decidem não se casar; quando vão falar em público; quando decidem amar outras mulheres.
Um fato que ilustra bem o desinteresse dos anarcopunks/anarquistas em discutir sobre gênero foi quando aconteceu a divisão dos temas no 9ª Encontro AnarcoPunk (realizado em João Pessoa , em 2005) para serem colocados nesta revista*. Apenas mulheres se interessaram para elaborar este texto.
Casos de violência vêm acontecendo com freqüência dentro do movimento anarcopunk e o pior é que não se é dada a devida atenção a eles. Mulheres libertárias são agredidas por aqueles que escolheram para serem seus companheiros e que assumem uma postura anarcopunk de combate a violência contra a mulher, cantando em suas bandas, escrevendo em seus zines ou berrando em seus discursos. Só que na prática...
A construção do gênero masculino também é dolorosa. Mas não há por parte dos homens nenhuma expressão de descontentamento em relação aos papéis que a sociedade lhes destinou. Então, será que os homens gozam de privilégios? Será que tais papéis não lhes trazem mais benefícios que malefícios? Podemos dizer que a opressão em relação aos homens se dá de maneira sutil, por isso não há uma percepção tão clara da opressão que sofrem, mas mesmo assim porque eles não se manifestam?
Alguns têm se organizado e participado ativamente de grupos de mulheres/feministas/anarcofeministas e de círculos onde se debate o sistema de gênero e a violência contra a mulher. Mas, a grande maioria continua inerte!
Apesar de já fazer parte do cotidiano do movimento anarcopunk e anarquista, o anarcofeminismo ainda causa polêmica. Boa parte d@s anarquistas/anarcopunks diz que o anarcofeminismo é desnecessário já que o anarquismo engloba a luta de tod@s @s oprimid@s; outr@s dizem que é “o machismo às avessas” e que não faz sentido existir, entre tantas outras colocações.
Na realidade, por falta de interesse das pessoas em estudar sobre o assunto e de materiais que falem sobre o tema é que existem tantas colocações, que geram mais confusão do que entendimentos. O anarcofeminismo não é nada disso que se coloca, mas sim a luta das mulheres anarquistas e que, consequentemente, abraça as causas que oprimem o ser masculino. Diferente de algumas feministas, as anarcofeministas não vêm a libertação da mulher isolada da dos homens. O anarcofeminismo não é segregacionista quando defende espaços para discussão apenas com mulheres, muitas vezes isto acontece de uma maneira tão natural (vejam o exemplo da elaboração deste texto). Há interesse dos homens em discutir, só para citar um tema, sobre gênero? Há interesse dos homens em discutir sobre libertação feminina?
Não há motivo para pânico quando as mulheres se reúnem. É apenas um meio encontrado para a organização feminina, tornando-as assim mais fortes e unidas, visto que o patriarcado fragiliza e coloca as mulheres como rivais e não aliadas.
Os homens também devem se reunir entre si e com as mulheres e expressar esta opressão que eles dizem afligi-los, pois só junt@s, mulheres e homens livres poderão destruir o sistema de gênero e construir uma sociedade igualitária de verdade.

*Este texto seria colocado na revista da Federação AnarcoPunk, proposta durante o 9ª ENAP, mas infelizmente o material não teve êxito. Não querendo perder este texto, que foi produzido com muito esforço, estamos disponibilizando-o a vocês!

Lilá, Mabel, Tatiana e Déborah

João Pessoa, 11 de maio de 2006

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

DST: o inimigo dorme ao lado

As doenças sexualmente transmissiveis ou DST vitimam várias mulheres em todo o mundo. No Brasil todo ano morrem, vítimas de DST cerca de 3000 mulheres. Um dado alarmante é que 70% dessas mulheres são casadas ou mantem relacionamento monogâmico e heterossexual.

O HPV é o virus mais comum, mas existe muitos casos de Hepatites, gonorréia e AIDS.

Levando em consideração o fato de terem companheiros, não há outra fonte de contágio senão o próprio. Manter relação sexual extrarelacionamento sem prevenção é uma falta de amor e respeito para com a companheira.

Outro agravante são as infecções corriqueiras, que também o culpado é o companheiro que faz assepsia inadequada de seu penis, mão e boca antes da relação sexual.

É hora de acordamos e não deixar o inimigo dormir ao nosso lado. Uma conversa séria com o companheiro e um exame podem nos salvar da morte.


Entrevista com Núcleo Pró - Federação Anarquista de São Paulo

Entrevista realizada por Maria Lacerda Mancini
E-mail:

Respostas
Ordem:

A) Eduardo Preto
B) Israel Sassá
C) Felipe Corrêa


1. Quando e como iniciou sua militância no movimento anarquista?

R: A) Em 1990 comecei a participar do MAP.

B) É uma história longa e até metafísica, mas resumindo, encontrei um homem (1988) as margens do Rio Tiete que estava lendo “A Conquista do Pão”, parecia que já conhecia aquele livro. Ficamos conversando um pouco, ele me presenteou com o livro e nasceu ali uma amizade. Eu com 11 anos e ele já passava dos 90. Após sua morte repentina saí em busca dos endereços que me falava em suas histórias e me encontrei com Antonio Martinez na frente da sede do CCS. Lá dei meus primeiros passos e conheci os anarco punks, tive afinidade com o MAP e participei dele até 2000.

C) Começou mais concretamente no fim dos anos 1990 no movimento de resistência global, depois de uma afinidade com outras propostas da esquerda, e mesmo de outros campos do socialismo.

2. Você já participou de varias organizações anarquistas. Pode fazer um comentário dessa atuação?

R: A) Participei do MAP em 1990 quando este era um movimento aberto e quantitativo, hoje o MAP perdeu na quantidade, mas ganhou na qualidade organizacional protagonizando a IAP, Também participei da JULI em 1991 e da FOSP em 1992, participei da fundação da OSL nacional e estadual em São Paulo e da articulação e fundação da RP em São Paulo.

B) Vou tentar lembrar algumas coisas. Em 91 formamos um coletivo formado por jovens (punk, rapper, roqueiros e outras) de nome Subumana. Permaneceu até 96, depois, com a saída de alguns e o ingresso de outros mudamos para GERA, que era um grupo de estudos. Com as atividades do GERA, tive acesso a outros grupos como, PCAM, ACR e posteriormente o ALDA. Nesse mesmo período, meados de 96, estávamos discutindo a OSL (junto com Eduardo e outros companheiros) e o que viria a ser o RP, não cheguei a participar de nenhuma das duas organizações, mas a RP acompanhei até sua formalização. O ALDA se dissolveu e seus membros formaram o primeiro núcleo do RP. Nessa época, conhecia um anarquista que fizera parte do CCS e tinha a noticia que estava iniciando umas atividades sociais na zona leste, e morava próximo da casa de meus pais, então fiquei no Coletivo Periferia, até hoje ainda fazemos algumas coisas.

C) Participei de grupos “libertários”, não anarquistas, como Centro de Mídia Independente e Ação Local por Justiça Global. Depois a Faísca Publicações e o Coletivo Anarquista Terra Livre. Hoje estou na FARJ.

3. Alguma dessas são especifista?

R: A) A OSL foi a primeira experiência de Organização Especifista Nacional!

B) O Coletivo Periferia nunca se definiu como especifista, porém todos seus membros sempre tiveram participações em movimentos sociais: ocupações urbanas, grêmios estudantis, sempre esteve próximo ao MST e participando de ocupações com MST, alfabetização, resistência a despejos – que são freqüentes na zona leste –, teve atuação importante nas movimentações contra o cadeião na leste e pela construção da USP e Fatec na zona leste junto com outras associações da região, etc. O interessante é que esse coletivo era formado por anarco cristãos, anarco punks, anarco feministas e outros adjetivos. Demoravam muito as decisões e alguns não participavam em determinadas ações que contrariassem sua escola do pensamento.

C) A FARJ.

4. Qual sua relação com a OSL e Resistência Popular?

R: A) No atual momento nenhuma, mas como disse participei da fundação das mesmas!

B) Nenhuma, nem sei quem está hoje nessas organizações.

C) Atualmente nenhuma.

5. Você conheceu Jaime Cubero e Antonio Martinez, se eles estivessem aqui será que concordariam com essa forma de organização?

R: A) Conheci SIM, foram eles meus professores políticos, Jaime Cubero foi o primeiro a defender o que se tornaria hoje o especifismo defendido pelo núcleo pró FASP da capital, em um texto muito conhecido sobre Organização Especifica dos anarquistas, onde ele fala que é impossível somar todos os Anarquismos numa mesma organização em especial os individualistas como propõem os sintetistas. Antonio Martinez nos falava da importância da atuação dos anarquistas nos movimentos sociais e ele mesmo falava da sua militância política em associações de trabalhadores em São Paulo. Creio que estamos materializando o desejo destes companheiros com a Pró-FASP.

B) As duas grandes autoridades que conheci em especifismo foram Jaime e Martins. Como disse o Eduardo, foram eles que nos orientaram sempre. Desde as discussões da formação da OSL e RP éramos orientados por eles. Varias vezes estive na casa do Jaime para que pudesse tirar alguma duvida e discutir sobre as organizações que iriam surgir e como deveria ser nossa conduta nos movimentos sociais. Que eles próprios também fazia parte de algumas associações (de bairro, trabalhadores, culturais).

C) Não conheci Jaime e Martinez.

6. Qual a diferença entre organização de síntese e a especifista?

R: A) A organização de síntese não se propõe atuar nos movimentos sociais por isso é mais aberta e federa grupos diversos de anarquistas, pois o seu único motivo de existência é a propaganda anarquista e a defesa de um anarquismo de pensamento, seu principal protagonista foi Sebastien Faure e atualmente, a maior representante da síntese é a Federação Anarquista Francesa. Já o especifismo se propõe a uma intervenção na realidade política social, vinculando o anarquismo a vários níveis e frentes de lutas, por isso é mais seletivo e fechado, seu principal protagonista é Bakunin, mas há outros como Malatesta, Durruti, Makhno e outros...

B) Gosto de ilustrar acerca do especifismo: participação ativa nos movimentos sociais, do lado de dentro. O outro modelo vocês já sabem.

C) Coloco ao final da entrevista alguns trechos de um texto de formação escrito algum tempo atrás. Mesmo sendo um pouco longo e meio “colcha de retalhos” (cortei muitas partes), reflete bem algumas diferenças fundamentais. É importante compreender que os dois modelos são muito diferentes. Se queremos chegar aos fins desejados, é imprescindível escolher os meios mais adequados. O especifismo é adequado para a transformação social que queremos imprimir à sociedade. A síntese não.

7. Você também é membro da FOSP, organização anarco-sindicalista, como pode conciliar essa dupla militância? É possível, nos dias atuais o sindicalismo ser um terreno fértil para a construção da revolução social?

R: A) Participo da FOSP desde 1992, mas não compactuo com aqueles que usam o nome da FOSP como o "Clãn do Xaveco". A FOSP é uma organização estatutariamente apolítica e não anarco-sindicalista e histórica na luta de classes, ao estar participando de níveis de lutas diferentes não significa que estes níveis não se relacionam, já que a militância é formada de pessoas ativas em mais de um nível de luta. O sindicalismo é a tática eleita na luta de classes pois vai de encontro contra a propriedade privada dos meios de produção, o MST é hoje a pratica do sindicalismo livre e de orientação revolucionaria, mostrando que esta viva a luta sindical.

B) No entendimento do especifismo, não há antagonismo nisso. Vemos no sindicalismo revolucionário uma oportunidade para revolução social, já que todos nessa sociedade têm que enquadrarem-se como trabalhadores (ou estão fadados à “morte” – física ou social). Essa configuração que a FOSP vem tomando, com a participação exclusiva de anarquistas, está longe da proposta inicial dessa organização. Os anarquistas não podem querer nem exigir que todos sejam anarquistas e o sindicalismo revolucionário não é uma causa de e para anarquistas, é para @s trabalhadores e assim, nós enquanto anarquistas temos que somar força com nossa classe social. E o fato de não entrarmos em sindicatos legalizados é que nestes participam até os chefes e estão atrelados ao Estado, não defendem os interesses dos trabalhadores. Fazem tudo conforme as leis e a lei não existe em beneficio da nossa classe e sim contra ela (Tolstoi). Toda a luta que existe hoje pode passar pelo sindicalismo revolucionário, mas não é a única forma de atuação. Se prestar bem atenção, até o crime organizado e traficantes (CV, PCC) estão formando seus sindicatos e pena que cobram impostos de seus filiados e estão vinculados a politicagem e ao Estado.

C) Não participo da FOSP e não tenho qualquer relação com eles.

8. Dentro dessa gama, onde se situa a AIT quanto à síntese e especifismo?

R: A) Em nenhuma delas, estatutariamente a AIT se define como anarco-sindicalista e não como Organização Especifica Anarquista e assim se define como a atuação dos anarquistas nos sindicatos, a AIT é uma organização social protagonizada por anarquistas, e temos que entender o porque esta a partir de tal momento se decreta como tal.

B) A AIT não se enquadra nem na síntese, nem como minoria ativa (especifismo). Mas está mais configurada para atuação especifista, pois se trata de uma frente de luta e muito importante para o futuro, quando os trabalhadores e trabalhadoras do mundo abrirem os olhos e também na atualidade, denunciando os picaretas das centrais vinculadas ao Estado e patronato. Foi na AIT que se iniciou a atuação especifista, os estudiosos de Bakunin e Malatesta podem confirmar isso.

C) Uma característica importante do especifismo é que ele busca diferenciar os níveis político (da organização anarquista) do nível social (dos movimentos sociais, sinditatos, etc. – não anarquistas). Para nós, defensores do especifismo, os anarquistas devem estar organizados especificamente, como anarquistas, para atuar em todos os ambientes sociais – sindicatos, sem terra, sem teto, movimentos comunitários, etc. Ou seja, consideramos o sindicalismo como UMA opção de espaço de inserção, mas não A melhor e nem a única opção. Isso, para nós, varia de acordo com o contexto em que atua cada organização. Esta é uma diferença do especifismo e do anarco-sindicalismo: os anarco-sindicalistas defendem um movimento social – sindicato – que caiba dentro de uma ideologia – do anarquismo. Não há separação entre político e social.

9. A FARJ é uma referência do especifismo no Brasil, eles terão participação nesse primeiro encontro, você pode falar da relação do núcleo pro-fasp da capital e a FARJ?

R: A) A FARJ que nos incentiva e nos apóia na formação da FASP um de seus militantes mora em São Paulo e também pertence ao núcleo Pró-FASP da capital.

B) No inicio, estávamos sós, defendendo o especifismo para a futura federação. Até que encontramos com a FARJ no “Carnaval Revolução” e vimos a semelhança das atividades deles com as nossas investidas junto aos movimentos sociais e eles se prontificaram em contribuir com as discussões pró FASP, depois, um de seus membros reside e trabalha aqui em São Paulo e veio somar nessa construção.

C) Sou membro da FARJ e acredito que inevitavelmente há afinidades entre o trabalho que desenvolvemos no Rio de Janeiro e o modelo de organização que se quer criar em São Paulo.

10. Alguns afirmam que vocês já trouxeram tudo pronto e por isso estão boicotando primeiro encontro e não querem nem participar das discussões nos grupos virtuais, você tem algum comentário quanto a isso?

R: A) As pessoas que falam isso e conhecemos muito bem quem são e quais a práticas políticas delas, com certeza percebem que o mundo não gira em torno do personalismo delas por isso se opõem ao especifismo.

B) Já participei de algumas tentativas de fundar uma federação ou algo parecido. Todas sucumbiram. Veja, a síntese já é uma realidade. Os grupos em São Paulo fazem atividades conjuntamente. A realização do “Expressões Anarquistas” é uma atividade que tem mais de duas agrupações envolvidas. Tem também as feiras, e vários outros eventos que acontecem por aí a fora. Mas isso é sempre de anarquistas para anarquistas é raro ver uma pessoa que não nos conhece. Quando propomos a FASP e atribuímos a ela o modelo especifista estamos abrindo para tod@s que concorde com a atuação coordenada nos movimentos sociais e não cabe a nós o título, como citamos e qualquer um que queira se aprofundar poderá constatar que quem preparou tudo foi Bakunin e Malatesta, eles que nos trouxe tudo pronto.

C) Não estamos fazendo a pró-FASP para agradar a todos os anarquistas do estado. Isso seria impossível e muito pouco funcional. Nosso objetivo é construir uma organização, partindo de uma discussão ampla, que possa interagir e ter relevância sobre as lutas de nosso tempo. Há uma série de questões a se discutir e outra série que não queremos discutir. Não queremos discutir se na federação tem que caber individualistas, não queremos discutir se organização é autoritarismo, se precisamos trabalhar com estratégia ou não, se os militantes devem ter responsabilidade ou não e coisas do tipo. Sabemos que queremos organização, diferença entre níveis na atuação, inserção social, atuação com estratégia, compromisso militante e algumas outras coisas. Toda forma de como faremos isso, as prioridades, os espaços de inserção, toda a formulação de conceitos, e a própria formulação de estratégia, fora uma série de outras questões, estão ainda em aberto. Queremos somente um alinhamento inicial, em questões “de saída” que facilitarão as discussões que virão a seguir. Quem tiver afinidade com a proposta está mais do que convidado a discutir e participar. Quem não tiver, constrói outras propostas ou organizações.

11. Algumas organizações especifistas nascem de um pequeno grupo (fechado) e depois se convidam outras pessoas de acordo com a afinidade, assim, parece que ocorreu com a OSL e o FAO, tem uma característica um pouco diferente da proposta pró fasp, que foi amplamente divulgada e aberta a discussão. Por que vocês preferiram seguir um método contrário?

R: A) Como disse participei da OSL e o FAO é um grupo promovido pela OSL, que percebeu que necessitava abrir mais o debate e a organicidade, porem acreditamos na importância do debate aberto, isso não significa que a FASP quando nascer será aberta! Mas o que esta aberto é o debate ! Se este método de participação aberto ao debate falhar, teremos certamente que rever a metodologia de debate.

B) Justamente. Fizemos questão de convidar tod@s companheir@s que poderia contribuir com a discussão. Fizemos um processo tão aberto que no grupo virtual que abrimos colocamos as pessoas e algumas delas é que pediram para sair. A priori incluímos todos que tínhamos afinidades e que de certa forma, nos pareciam com autoridade para tratar o assunto. Depois iniciamos a divulgação pelo CMI e outros veículos de comunicação. Não queremos excluir ninguém e sim incluir. Esse modelo precisa de pessoas e pessoas conscientes e coerentes, pessoas que tenha bem definido seu nível ideológico, que tenha convicção de seu anarquismo e isso só teríamos abrindo a discussão. Não conhecemos todos anarquistas do Estado de São Paulo e ainda, dos primeiros que vinculamos no grupo virtual, não chega a cinco as inscrições para o encontro, no entanto, já passa de 40 inscritos e desde o rabo até o bico do pássaro. Vem anarquista de toda parte, de todas regiões do estados, com varias experiências na bagagem e alguns que estão dispostos a sair da inércia e partir para a ação nos movimentos sociais. Isso é a reconstrução daquilo que nossos companheir@s iniciaram.

C) Minha resposta está contemplada naquilo que os companheiros falaram.

12. Há um grande número de acadêmicos (graduados, mestres e doutores) que são anarquistas e um número ainda maior de estudantes. Algumas participações suas na lista “Expressões Anarquistas”; você faz algumas críticas aos anarquistas ingressos e egressos da universidade, você tem alguma objeção quanto a participação de estudantes e acadêmicos na futura federação?

R: A) O Objetivo da Educação é socializar conhecimento, e para nos esta socialização deve ser a favor e em pró da classe dos explorados e oprimidos, resistindo a privatização e ao sucateamento da educação, com um amplo movimento de acesso e democratização da Universidade, se estes estudantes e professores forem a favor e participarem do Movimento da Educação ai estarão conosco, mas se se opuserem estarão do outro lado do campo. Porem a critica ao academicismo não é esta, Todos do núcleo pró FASP da capital são ou foram universitários, porem existe aqueles que querem fazer do Anarquismo somente uma escola de pensamento desvinculada da realidade e da luta de classes, usando o Anarquismo como Status dentro da universidade só unicamente fazendo teses acadêmicas, e é esta a pratica e pessoas que não queremos conosco!

B) Alguns que não me conhecia pensaram que minha formação é autodidata. Quando fiz e ainda faço essa critica é no intuito de questionar esses anarquistas ou melhor, todos nós que nos reivindicamos anarquistas. Veja o fato de ingressarem na universidade não é contraditório. Contraditório é permanecer sem fazer nada, sem socializar o conhecimento adquirido e vincular as atividades acadêmicas, de cunho especifico da academia à militância anarquista, o que acontece muito. É comum a defesa de teses desse tipo. Lógico que um trabalho que resulta em livros como “O Espírito da Revolta” é importante para o movimento. Mas temos que ir além e é isso que queremos. Pessoas como o Eduardo Valadares, por exemplo, queremos que esteja junto, nessa nossa construção e nos nossos trabalhos militantes. O que fortaleceu essa critica foi a participação em ocupações com o MST e acompanhando algumas atividades indígenas, quando podemos ver estudantes e intelectuais com a enxada na mão, participando de igual para igual com os demais. Nas tribos pelo Brasil todo se encontra graduados, mestres e doutores, mas esses pegam no pesado como qualquer um sem formação acadêmica. Outro texto que pode exemplificar isso é “Devolvam o Anarquismo ao Povo Pobre” publicado no CMI. Valorizo muito o conhecimento empírico e o adquirido pela cultura oral, como as dos índios, cablocos, quilombolas. Essa é a minha origem. Quero todos e todas ao meu lado, ao nosso lado ombro a ombro, na construção da revolução social. Temos que dar continuidade nisso que nos foi passado a cada geração. Juntos com esses acadêmicos, de preferência.

C) Minha resposta está contemplada naquilo que os companheiros falaram.


13. Qual expectativa com esse primeiro encontro?

R: A) Muito boas, até hoje 20 dias para o Encontro, são mais de 40 inscritos e mais de 20 solicitações que não se inscreverão (preenchendo a ficha de inscrição), o Blog: www.nucleos-fasp.blogspot.com já tem por volta de quatro meses e a duas semanas colocamos um contador de acessos a partir do zero e já são em duas semanas mais de 330 acessos. Pessoas de outros Estados também estão se inscrevendo, pois querem participar do debate especifista e contribuir com o debate de suas praticas anárquicas!

B) Que sai “namoro”! Quando criança chamava @s vizinh@s – Vem, vamos brincar! Hoje chamo @s companheir@s – Vem, vamos a luta! Esperamos que a compreensão adquirida nesse primeiro encontro nos arremeta a formalização da FASP e ao início dos trabalhos.

C) Minha resposta está contemplada naquilo que os companheiros falaram.

* * *

ESPECIFISMO E SINTETISMO (trechos)

O especifismo possui uma linha teórica e ideológica bem definida e uma estratégia de luta bem determinada. Agrega militantes com afinidades em teoria e prática. Diferentemente, a organização de síntese, ou sintetista, busca agregar os militantes anarquistas em um agrupamento determinado e, geralmente, a única condição para o ingresso de militantes é que esses se considerem anarquistas. Na prática, o que acontece é que sabemos que o anarquismo abarca dentro de si uma série de posições e teorias contraditórias (ao que outros chamam “pluralismo de idéias”) que comprometem fortemente a formulação de uma linha teórica/ideológica e de uma estratégia de luta bem determinada. Geralmente agregados em torno do consenso do “onde estamos” – ou seja, da crítica ao sistema capitalista, da crítica ao Estado, da crítica à democracia representativa, etc. – os militantes das organizações sintetistas têm pouco acordo em torno do “aonde queremos chegar” e praticamente nenhum acordo sobre o “como atuar”. Isso porque as diferentes formas de anarquismo variam muito em suas concepções estratégicas – ou na falta delas – de como se chegar a uma sociedade socialista libertária.

Como conciliar, por exemplo, em uma organização, pessoas que acreditam na organização específica dos anarquistas trabalhando nos movimentos sociais, com pessoas que acreditam que o trabalho com os movimentos sociais é autoritário? Como conciliar anarquistas que acreditam que a luta e a organização são prioridades com anarquistas espontaneístas que acham a própria organização autoritária? Como conciliar anarquistas socialistas com individualistas radicais que, ao invés de estarem preocupados com a constituição de uma luta séria e combativa contra o sistema, põem-se a defender a supremacia do ego e do indivíduo em detrimento do coletivo ou mesmo da sociedade? Essas são questões concretas com as quais as organizações sintetistas têm de conviver, por abarcar dentro de si todas as tendências do anarquismo. Lembremos que na síntese do Faure, ele propõe uma união de anarco-comunistas, anarco-sindicalistas e, o mais grave no meu entender, anarco-individualistas.

Neste modelo, não há unidade teórica e nem unidade programática. Há múltiplas linhas teóricas/ideológicas e autonomia dos grupos e indivíduos que podem fazer ter suas próprias linhas teóricas/ideológicas (ou simplesmente não ter) e traçar seus planos para atuar, da forma que acharem melhor. Não há obrigação dos indivíduos/grupos trabalharem alinhados e cada um faz aquilo que acha mais importante, ou simplesmente mais “legal”. Com isso, não há uma estratégia de luta e os indivíduos/grupos que estão dentro da organização terminam por trabalhar sempre no plano tático, cada um com as ações que julga ser pertinentes.

A organização especifista atua como minoria ativa, com o objetivo de se aproximar dos movimentos sociais e influenciá-los o máximo possível, a partir das práticas libertárias. Isso sempre de maneira ética e não querendo ser chefe ou dirigir o movimento, mas fazendo com que este funcione da maneira mais libertária possível. Bem organizados, os anarquistas poderão exercer esta influência e não serão atropelados por outros agrupamentos de burocratas ou autoritários.

No modelo de síntese, muitas vezes, a idéia de minoria ativa é tratada pura e simplesmente como vanguarda no sentido marxista-leninista. Para muitos militantes dessas organizações, qualquer organização política que busque aproximar-se para o trabalho com movimentos sociais está tentando aparelhá-los. Muitos acreditam que esta inteiração do político com o social acaba com a espontaneidade e a autonomia do movimento social.

O especifismo caracteriza-se, dentre outros elementos, pela ênfase que dá à necessidade do trabalho social e da inserção social. O trabalho social é a atividade que os anarquistas organizados realizam nos movimentos sociais e populares e a inserção social é a inserção das idéias e dos conceitos libertários nesses movimentos. Como as organizações especifistas caracterizam-se pelo reconhecimento de que nossa sociedade é composta por classes – independente da forma como vamos pensar na divisão destas classes – é inevitável que, pelos problemas econômicos, mas não só por eles, haja uma parcela da população que goza da riqueza gerada no mundo e de todos os seus benefícios, e uma grande maioria que está privada de tudo, muitas vezes até das necessidades mais básicas que possui um ser humano. A partir desta perspectiva, e levando em conta que o projeto do anarquismo é constituir uma sociedade sem classes, autogerida e federada, parece impossível que um processo de luta possa se dar sem o envolvimento com a classe dos explorados e dominados. Sabemos que muitas foram as organizações que, colocando-se como a vanguarda dos movimentos populares, tentaram libertá-la. No entanto, se queremos lutar por uma sociedade sem exploração e dominação, não há coerência em se fazer isso sem o envolvimento daqueles que são as maiores vítimas da sociedade capitalista de classes: o povo explorado e dominado.

Assumir esta postura não significa idolatrar o povo ou acreditar que ele é revolucionário na essência, mas apenas concordar com a idéia que a luta contra a exploração deve se dar também, com o envolvimento daqueles que são os maiores explorados, algo muito óbvio do meu ponto de vista. Pensando meramente na questão econômica, e nas tradicionais “classes”, é inevitável que em um processo de luta e mobilização estejam incluídos os pobres. Assim como Bakunin, acreditamos que a classe média se posiciona na luta de classes; estando sempre a maioria com os privilegiados, com a elite. No entanto, há a possibilidade de membros da classe média estarem associados aos explorados, e isso sempre é válido. O que não pode acontecer é haver um movimento contra a sociedade de classes que envolva somente militantes da classe média e que não busque inteiração com os mais explorados. É imprescindível o envolvimento da classe explorada no projeto de luta por liberdade.

Sobre a questão da luta de classes surge um outro ponto de divergência entre os modelos de organização especifista e sintetista. O modelo especifista reconhece a luta de classes e acredita que o anarquismo, para florescer, deve ser utilizado como ferramenta para a luta de classes. Utilizando a metáfora de Neno Vasco, de “jogar as sementes no terreno mais fértil”, para os especifistas, o “terreno mais fértil” é a luta de classes. São os setores da população em que as contradições do capitalismo são mais fortes, são os movimentos sociais mais combativos, etc. E definição do conceito de classe deve ser objeto de grande atenção dentro da organização. Em toda a sociedade, há relações de dominação, que podem se dar no âmbito econômico, político, cultural, racial, étnico, etc. Neste sentido, a definição de classe pode ser feita a partir das relações dominador/dominado, sendo todos os dominadores uma classe a se combater e todos os dominados um terreno para desenvolvimento do anarquismo. Assim, estar presente com a classe dos dominados significaria buscar os setores em que a dominação estiver presente.

Na indefinição das organizações de síntese, há quem defenda a luta de classes e há quem acredite que ela nem mesmo exista. Há argumentos que criticam a velha forma de definição da classe (burguês-proletário) e julgam que, porque esta forma de definição está ultrapassada, a luta de classes seria inexistente. Falar em classe, para muitas organizações sintetistas é algo anacrônico.

Os sintetistas caracterizam-se também por não defenderem a inserção social. Parte não acredita que isso seja prioridade, e outra parte, o que é ainda pior, acha que isso é autoritário. Para aqueles que pensam que a inserção não é prioritária, parece que outras atividades teriam mais efetividade no desenvolvimento do anarquismo (por mais que geralmente isso não seja discutido ou mesmo dito). Apesar de não haver um pensamento estratégico, o que acontece na prática é que os sintetistas procuram trabalhar com a propaganda anarquista, muito restrita às publicações, aos eventos, à cultura. Este tipo de propaganda é importante, mas desde que seja complementar a uma atuação concreta e a um movimento de inserção social o que, do meu ponto de vista, faz propaganda com melhores resultados. A propaganda deve acontecer por estes dois vieses: um mais educacional/cultural e o outro de mobilização/agitação/luta. Quem não acredita que a inserção social não é e nem deve ser prioridade prefere trabalhar em outros meios, longe da luta de classes, longe dos movimentos sociais, longe das pessoas de ideologias diferentes, etc. Muitas vezes, terminam por tornarem-se sectários, conseguindo conviver apenas com seus pares. O anarquismo assim se “guetifica”. Isso explica muito o fato de as organizações sintetistas serem muito mais sectárias que as organizações especifistas.

Muito mais grave que a posição acima, é a posição defendida por aqueles que são contra a inserção social. Posição também muito comum nas organizações sintetistas, esses anarquistas acreditam que como muitas vezes não são pobres, como muitas vezes não estão formalmente em movimentos sociais (não são sem terra, por exemplo), que é autoritário trabalhar com a comunidade carente ou mesmo com os movimentos sociais, já que “são de fora dessa realidade”. Para eles, é autoritário uma pessoa que tem onde morar apoiar a luta dos sem-teto, é autoritário freqüentar um movimento comunitário sem ser da comunidade, é autoritário apoiar o trabalho dos catadores de lixo se você não é um deles. Para os sintetistas que são contra a inserção social, só há legitimidade em se trabalhar com movimentos populares se você é um “popular” e se você faz parte da realidade do movimento. Como geralmente esses anarquistas não estão nessas condições, não estão ligados aos movimentos nem à luta de classes. Fazem de seu anarquismo um “movimento em si mesmo”, que se caracteriza por ser essencialmente de classe média e de intelectuais, por não buscar contato com as lutas populares, por não estar em contato com pessoas de ideologia diferentes (eles, que pregam tanto a diversidade...). A inserção social, para estes militantes, é muitas vezes comparada ao “entrismo” da esquerda tradicional, pessoas que entram nos movimentos para fazê-lo funcionar em seu próprio favor. Na maioria das vezes, defendem um certo espontaneísmo de que “vir de fora”, colocar o anarquismo dentro dos movimentos, é autoritário. Segundo eles, as idéias deveriam surgir espontaneamente nos movimentos... a discussão, a persuasão, etc. são externos ao movimento e, por isso, entendidos como autoritários.

A organização específica é um agrupamento no âmbito político-ideológico cujo trabalho se desenvolve em suas frentes de inserção, junto aos movimentos sociais, e com as atividades complementares. A organização específica anarquista é o que chamaremos aqui de nível político, e os movimentos populares (não-anarquistas) são o nível social. É uma característica importantíssima do especifismo a diferenciação entre os níveis político e social de atuação.

Cabe aqui um parêntese para enfatizar que quando dizemos que o anarquismo deve ser um anarquismo social, não estamos dizendo que ele deve “estar na sociedade” pois, no limite, se um indivíduo se diz anarquista, já que este indivíduo faz parte da sociedade, então este anarquismo seria “social”. Esta é uma interpretação mal-intencionada que vem sendo dada pelos individualistas, para justificar seu asco pela luta social e pelos movimentos populares. Quando falamos em anarquismo social, falamos em um anarquismo que não só interaja com a sociedade, mas fundamentalmente com os movimentos que surgem a partir das contradições desta sociedade, ou seja, os movimentos que refletem a luta de classes. Logo, um anarquismo que seja fechado em si mesmo, que não tenha interlocução com as lutas de seu tempo, é uma ferramenta ideológica que não serve para nada. O anarquismo vira “conversa de bar”, “identidade entre amigos”, um “estilo de vida diferente”, e muitas outras coisas que vemos todos os dias. Por isso afirmamos: o nível político (organização específica anarquista) tem absoluta necessidade de um nível social (movimentos sociais). Sem inteiração com um nível social, o nível político é estéril.

A organização sintetista mistura dentro de si uma forma de movimento-organização-político-ideológico-social. Para os sintetistas, o anarquismo pode ser um movimento social, pode ser uma organização, pode ser um grupo de afinidades, pode ser um grupo de estudos, pode ser uma comunidade, pode ser uma cooperativa, etc., etc. Como não fazem esta discussão de o que é político e o que é social, terminam por tentar levar a ideologia anarquista para dentro dos movimentos que participam. Não há discussão de que o movimento social deve estar constituído em torno de suas próprias demandas e que por isso, tratar dos aspectos ideológicos do anarquismo no movimento social não faz sentido. Um exemplo: o movimento de sem-teto deve estar agrupado sobre a luta contra a propriedade, a luta por moradia, a luta de um sindicato deve estar em torno de ganhos para os trabalhadores e assim por diante. Quando os sintetistas se põem a trabalhar com os movimentos, logo se vêem frustrados pelo movimento social não se tornar anarquista. É comum acreditarem que são autoritários, que não possuem os mesmos valores que os anarquistas, etc.

A lógica da organização de síntese é simples. Muitos acreditam que o “social” é a sociedade, e não os movimentos sociais e populares. Por isso, freqüentemente, tornam-se organizações de, e voltadas para a classe média. Quando acreditam ser necessária uma atuação nos movimentos sociais, o fato de não fazerem distinção entre o social e o político, misturando os dois níveis, coloca a relação entre o anarquismo e os movimentos em xeque. Os anarquistas não se reservam uma instância própria para aprimoramento e solução dos problemas ideológicos. Logo, utilizam freqüentemente a esfera social para isso. Como em organizações de síntese não há unidade teórica, são freqüentes as discordâncias entre os próprios anarquistas, e isso dentro do movimento social. A partir disso, é comum as pessoas do movimento considerarem o anarquismo uma “confusão” uma arena de brigas e discórdias. Assim, nem o social caminha, pois as discussões do movimento não caminham, e nem o político, visto que, ao querer resolver questões do político dentro do social, as possibilidades são extremamente reduzidas, quando não inviáveis. Por este motivo, não acredito em movimentos sociais anarquistas, mas em movimentos sociais, em que trabalham os anarquistas, onde tentam influenciar-lhe o quanto for possível, principalmente pelo exemplo e em torno das questões práticas.

Outro motivo de forte divergência entre o sintetismo e o especifismo é a questão da estratégia.

Na prática especifista, como funciona a elaboração da estratégia? É no âmbito da organização específica anarquista que são feitas as análises de conjuntura, que se analisa os contextos mundial, nacional e regional; que se analisa os movimentos e as forças populares em jogo, suas influências, potencialidades; as questões da política institucional que têm influência sobre os ambientes nos quais nos propomos a atuar. Neste mesmo âmbito da organização específica, devemos ter reflexões sobre nossos objetivos de longo prazo, ou seja, forjar nossas concepções de revolução social e do próprio socialismo libertário. Após isso, o mais complicado será pensarmos em uma proposta de ações que buscarão atingir tais objetivos, ou ao menos, fazer com que eles se aproximem. A estratégia buscará responder a questão: como sair de onde estamos para chegar onde queremos?

Como trabalhar em uma organização que cada um faz somente aquilo que lhe dá na cabeça? Nas organizações de síntese, as coisas funcionam assim: se um grupo quer trabalhar com a questão dos desempregados, trabalha; se um outro quer fazer uma biblioteca, faz; se outros querem fazer eventos, fazem; se outros ainda querem criticar os que trabalham com os desempregados, acusando-os de assistencialistas, preferindo ressaltar o papel do individualismo, fazem... Enfim, cada um faz uma coisa acreditando estar contribuindo com um todo comum.

Há uma metáfora bem clara que mostra a diferença em termos de estratégia entre as organizações sintetistas e especifistas. Suponhamos que o objetivo seja abater o maior número possível de pássaros a tiros. As organizações sintetistas distribuirão uma arma a cada membro que passará a atirar, cada um, da forma como acreditar ser melhor. Muito provavelmente o farão sem planejamento, sem divisão de tarefas, sem unidade. As organizações especifistas, ao contrário, buscarão fazer uma interpretação do terreno em que atuam, planejarão a melhor forma de atingir o objetivo, estabelecerão prioridades, dividirão as tarefas e partirão para a ação, todos muito bem cientes dos objetivos gerais e dos objetivos de cada um.

Por este motivo, a estratégia é grande inimiga da organização de síntese: qualquer discussão que tente tratar do “como atuar” implicará em problemas muito sérios na organização, quando não na sua implosão. Como conciliar uma estratégia para atuação de um grupo que acredita que deve atuar como organização específica no movimento social com um grupo que acha que a prioridade deve ser a convivência entre amigos, a terapia de grupo ou mesmo a exaltação do papel do indivíduo, considerando autoritário (ou mesmo marxista” ou assistencialista) o trabalho com movimento sociais? Há duas formas de se trabalhar essas diferenças nas organizações de síntese: ou se discute as questões, e se vive entre brigas e desgastes que consomem grande parte do tempo dos militantes, ou simplesmente não se toca nas questões. A maioria dos grupos opta pela segunda forma.

Recordemos que o modelo de síntese proposto por Faure defende a atuação de anarco-comunistas, anarco-sindicalistas e anarco-individualistas.

Para os individualistas, o objetivo do anarquismo não é mais combater por uma sociedade socialista libertária. A grande maioria já renunciou ao socialismo. Estes anarquistas consideraram simplesmente os argumentos contra o Estado e esquecem da crítica ao sistema capitalista, traço muito comum nos anarquistas contemporâneos. Lembremos que, se Bakunin, por exemplo, não debatia muito sobre o capitalismo, era porque a crítica ao sistema capitalista estava completamente engendrada no movimento socialista do século XIX. Estava claro que qualquer novo sistema deveria ser construído fora do capitalismo. E os debates ficaram onde não havia acordo, ou seja, sobre a necessidade ou não de haver uma tomada do Estado; ou seja, se o Estado era ou não um meio para se atingir o comunismo. Os individualistas fazem hoje uma crítica do Estado, muito dentro dos padrões anarquistas, mas, ao relegarem ao esquecimento a crítica ao capitalismo, caem em um liberalismo funesto, que pretende desenvolver liberdades individuais dentro da sociedade presente.

As idéias socialistas de construção de uma nova sociedade sem dominação e alienação, uma sociedade autogerida e federada, que desse conta da libertação de todos os homens, passou a ser sustentada como a busca de um espaço para a liberdade individual que, apartada da liberdade coletiva, tornou-se meramente um gozo egoísta para o deleite de alguns poucos que encontram-se e podem, por seus privilégios econômicos dentro do capitalismo, permitir-se isso.

Nas organizações sintetistas, na grande maioria dos casos, o único critério que é utilizado para a entrada de membros é que a pessoa se considere anarquista. Como vimos, e como vemos todos os dias na realidade, o anarquismo é um “balaio de gato”, que tem muita coisa boa, mas muitos perdidos, e gente não aceita em nenhum outro lugar, que está buscando uma identidade e tentando se encontrar. Nestas organizações não há muita rigidez na entrada ou mesmo para saber se as pessoas estão ou não estão no grupo, já que algumas participam um pouco, umas são mais comprometidas, alguns assumem mais tarefas do que outros. Enfim, cada um se envolve da forma que acha melhor e não há muita cobrança da organização para com o militante. Geralmente há um só nível de militante, então, um membro que aparece nas reuniões uma vez ou outra, ou fica à margem das questões da organização pode aparecer em um congresso, dar opiniões ou mesmo discutir questões fundamentais da organização como princípios, etc. É muito freqüente, também, cada um entender a organização de uma forma, cada um expor as suas concepções de uma maneira diferente, porque assim que a organização sintetista é entendida. Além disso, muitas organizações de síntese trabalham com o consenso, o que permite, na prática que, em nome da crítica contra a “ditadura da maioria” uma minoria várias vezes manipule a maioria. Isso porque para não “rachar”, as organizações assumem como posições próprias, aquelas que são minoritárias.

Outras características marcantes das organizações sintetistas é que a “diversidade” de concepções impede o aprofundamento dos debates ideológicos, isso porque, como há divergência nas questões “de saída”, não há como se percorrer um caminho mais longo rumo a uma “chegada”, ou a um acordo comum. Este é o motivo de, nestas organizações, se perder mais tempo discutindo questões de forma, do que questões de conteúdo, realmente importantes para a militância. Em uma organização sintetista, a tendência é que essas questões que já são complicadas no âmbito social invadam o político, engessando a organização anarquista. Na organização sintetista não há acordo sobre o “como caminhar”; só há um acordo que as coisas “devem ir caminhando”.

Na organização especifista, há um modelo bem definido de qual é o anarquismo que a organização defende, então, o ponto de partida já é consenso. Alguns exemplos disso podem ser: já se sabe que o anarquismo é uma ideologia, e que como tal, deve ser o motor de uma atuação política, já se sabe que a organização é imprescindível, já se sabe que o anarquismo deve buscar uma postura socialista e classista (reconhecendo portanto a importância do problema econômico), já se sabe que se deve buscar uma inserção nas lutas sociais e que, para isso, é necessário criar/participar de movimentações sociais, já se sabe que a busca da liberdade é sempre coletiva e não puramente individual, etc.

Nas organizações específicas, há critérios de entrada mais rigorosos. Não é porque uma pessoa se define como anarquista, que ela já poderá entrar na organização. Isso é um primeiro passo, mas outros critérios serão fundamentais: a pessoa deve acreditar no anarquismo como ideologia que move a atuação política, e por isso, deve acreditar que o anarquismo é uma ferramenta de luta, deve acreditar na necessidade de organização, na necessidade de participar das lutas sociais, etc. Então, quando um militante busca a entrada na organização especifista, esta o aceita sempre verificando se ele está alinhado com essas questões de fundo. A partir de então, será muito mais simples trabalhar, pois as linhas gerais já estão definidas.

Outro ponto central que favorece a organização específica é a relação do comprometimento do militante com a organização. Não sei se esta é a impressão de todos, mas tenho a nítida sensação que este é o grande problema dos grupos e organizações libertárias de hoje. É muito comum as pessoas se aproximarem e participarem, mais ou menos das coisas, fazendo somente aquilo que têm interesse, muitas vezes assumindo compromissos e não cumprindo, ou simplesmente, não assumindo compromissos. A organização específica exige um alto nível de compromisso dos militantes, sendo imprescindível que ele assuma compromissos frente a organização e os cumpra. Por isso, ele será muito mais cobrado pela organização se ela for específica, do que se for uma organização de síntese, que neste ponto é mais complacente com a falta de compromisso.

O compromisso da organização especifista imprime uma relação militante-organização que se pauta na relação mútua que a organização é responsável pelo militante, assim como o militante é responsável pela organização. Neste sentido, assim como a organização deve satisfação ao militante, o militante deve satisfação à organização, e será comprado por isso. É inegável que, por este motivo, o modelo de síntese é mais “legal”, mas muito pouco efetivo do ponto de vista da militância, pelos motivos já explicados. Como a militância é algo necessário pela luta por uma sociedade mais livre e igualitária, ela não será sempre 100% “legal”. Neste caso, se tivermos de optar entre um modelo de militância mais efetivo e outro mais “legal”, devemos optar pela efetividade.

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Núcleo Pró-FASP Capital

Julho de 2008